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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sabedoria Caipira

Para a grande mídia brasileira, caipira é toda pessoa nascida no interior, ao mesmo tempo em que ridiculariza comparando o caipira ao Jeca Tatu. Basta ir numa dessas “Festas Juninas” de hoje para ver as pessoas vestidas como tal, de calça pula-brejo, com remendos no traseiro e no joelho, sem dentes, cara suja, chapéu todo rasgado, com cabelos que mais parece com uma carroça de capim; enfim, um verdadeiro Jeca Tatu. Com certeza, essas pessoas nem sabem a origem e o significado de uma Festa Junina, tampouco o significado da fogueira. Tanto que até já existe a fogueira artificial. Muitas escolas fazem suas festas juninas, única e exclusivamente, para arrecadar dinheiro para outras festas. Nem professores, nem alunos, ninguém sabe nada sobre o que é uma Festa Junina; só sabe que tem que se vestir de palhaço. Sinceramente, não lembro, em todo tempo em que morrei na roça – foram mais de 20 anos – e até hoje, de ter ido a uma festa junina vestido assim; muito pelo contrário, sempre ia com a melhor roupa, bem barbeado; até comprava chapéu novo, exclusivamente para a Grande Festa Religiosa. A mãe olhava até se a gente tinha cortado e/ou limpado bem as unhas.
Pessoal, desculpem-me, esse é um assunto meio fora de época mas, não sei por quê, me deu vontade de escrever isso.

Existem diversas definições nos dicionários de Língua Portuguesa para o vocábulo “Caipira”, tais como: Caipira é o caboclo do interior; diz-se do indivíduo sem traquejo social, casca-grossa, cafona; habitante do campo ou da roça, particularmente os de pouca instrução e de convívio e modo rústico. Enfim, são tantas as definições que algumas até nos ofende; afinal, não somos assim tão casca-grossa, somos apenas um pouco radical quanto aos nossos princípios, como bem define Inezita Barroso, na entrevista abaixo.

Para a violeira Inezita Barroso, a maior virtude de uma pessoa é ser ela mesma por toda a vida.

por Priscilla Santos | foto Divulgação

Muito se engana quem acredita que a violeira, cantora e folclorista Inezita Barroso é natural de alguma cidadezinha perdida pelo interior do país. Inês Madalena Aranha de Lima Barroso nasceu foi em São Paulo, num domingo de Carnaval, em 1925. Mas a paixão pela cultura caipira vem de pequena, quando passava férias em fazendas da família. Isso sem falar na convivência com o músico Raul Torres, que era amigo de seu pai, e da admiração por Mário de Andrade, grande estudioso da cultura brasileira e seu vizinho na infância. Mais tarde, Inezita cursou biblioteconomia e aprofundou os estudos em folclore brasileiro. O primeiro disco veio em 1953, pela RCA Victor, um 78 rotações com duas faixas que marcariam sua carreira: "Moda de Pinga", de Laureano, e "Ronda", de Paulo Vanzolini. Ao todo foram 80 álbuns, sendo o mais recente Hoje Lembrando (pela gravadora Trama), de 2003. O talento de Inezita viu-se em rádios e até no cinema antes de chegar ao programa Viola Minha Viola, na TV Cultura, que comemora 25 anos em 2005, tendo Inezita como apresentadora desde o primeiro.
A mulher que me recebeu de batom nos lábios nem aparenta sua idade, a não ser pela voz serena e pela sabedoria que só quem muito viveu tem.
O que é ser caipira?
O caipira é uma pessoa simples, porém sábia e inteligente. Ele não gosta de complicar nada. Se tem nó no caminho, ele desfaz. É muito difícil ele se bandear para um lado e virar outra coisa, ter outra personalidade que não a dele. Ele vai até o fim. Quando alguém caçoa, ele fica magoado, mas sempre tem uma resposta fantástica para dar. Eu já assisti a várias cenas entre petulantes e caipiras legítimos. Numa das últimas, estava o caipira de cócoras afinando a viola e veio um mocinho e perguntou: "Que instrumento é esse?" O caipira respondeu e o menino retrucou: "Nossa, mas num tempo desse, moderno, você ainda toca essa droga aí?" Aí o caipira ficou espinhado, né, louco da vida, e respondeu: "Meu filho, olha, eu estou com quase 90 anos e pretendo chegar aos 100 para tocar viola". Falou até sem olhar pra cara do moço, mas reagiu na hora, lindamente, sem bater ou ofender.
Isso é sabedoria?
Isso e mais, ele tem sabedoria para tudo. O tratamento médico é com ervas, chazinho, tudo bem simples. O caipira usa aquilo que é feito com as próprias mãos, essa é sua maior glória. O índio era assim e, como eles vêm direto do índio, sabem manejar as coisas. Sabem plantar, colher, o que presta e o que não presta, o que é remédio e o que não é, qual é a melhor alimentação. As mulheres parece que já nascem sabendo cozinhar, tratar de filhos. Eu sempre admirei essa parte. Como aprenderam? Não têm professor, é espontâneo. O caipira aproveita muita coisa da natureza, como a palha e o barro, para criar sua arte. Se a gente fosse fazer isso teria que ir a uma escola, ter as ferramentas. Já ele fabrica as ferramentas. Não tem empecilho para o caipira, é uma vida reta, bonita e simples.
Esse conhecimento tradicional passa de geração para geração?
Está se perdendo bastante. Até a música e a própria viola, que é muito difícil de tocar, era aprendida de ouvido, de olhar, uma transmissão oral, coisa que hoje em dia não existe. Já estão escrevendo música de viola, colocando na pauta, porque o pessoal quer modernizar. Não sou contra que modernize, mas que não tire aquele espírito mais antigo, a tradição. Não sapateie em cima da tradição.
Ainda é possível viver nesse isolamento do caipira?
A gente não pode prender os filhos na roça. Então, eles vêm para a cidade e ficam de vez ou, quando voltam, estão completamente longe dos pais. Dizem: mas não é assim que se faz, na cidade é assim. Café com filtro, por exemplo. Na roça tem que ter o coador de pano, senão tira o gosto do café. Aquele bule enorme que fica no fogão o dia todo. Aqui você não pode fazer isso, nem teria tempo de ficar vigiando uma coisa o dia inteiro. Mas eles não entram em atrito, ou o filho toma o jeito do pai ou o pai não dá muita bola para o que o filho está contando.
E o que se perde com isso?
Perde muito a observação das coisas, né, você se deter mais em algo. A gente sempre está olhando por cima ou um pouquinho para o lado. Você não vê como deveria ver. Até os sentimentos. Quando você fica com raiva de alguma coisa diz: puxa que chato, vou brigar. Mas a falta de tempo faz você dizer: deixa para lá, vai demorar muito para eu encontrar o fulano para brigar com ele, já passou. Então a gente se altera muito no gênio, no sentimento, em tudo. Você se dobra à loucura da cidade. E lá (na roça) não, você tem tempo de viver, sentar, pensar.
Mas, afinal, o caipira muda ou não muda quando chega à cidade grande?
Acho que não, esse é o milagre. O filho até fala "essa música do senhor é muito chata" e fica ouvindo outras coisas. Mas quando ele põe o pé em casa e ouve uma moda de viola, aí é uma choradeira total. Por quê? Qual é o tempo principal da gente? É ser criança. Quando você está aprendendo tudo, vendo tudo, gostando de tudo, está bebendo a vida. Aí você muda um pouco, dá uma pausa, mas não mata aquilo nunca. Fica dentro de você. Quando você volta e ouve de novo, vê de novo, você desmonta.
Por que moda de viola é tão triste?
Acho que é uma condição dos caipiras viverem assim meio isolados uns dos outros, não tem muita festa. O caipira foi catequizado pelos padres, tinha que ser uma pessoa muito reta, religiosa, não podia pecar, eles dão um valor danado a isso. É uma obediência, vamos classificar assim, que nas regiões do Brasil por onde não andaram os padres não tem. A música caipira é muito triste.
Mas o caipira é feliz?
É. Felicidade não tem nada que ver com alegria, com coisa ruidosa. A pessoa pode ser muito feliz quieta, introvertida.
Felicidade tem a ver com quê?
Cada um põe onde quer, né? Se você acha que está bem, você continua daquele jeito. Se acha que não, você sai e procura outras coisas. É engraçado isso, é uma coisa etérea.
Como pode você, paulistana, ter se tornado uma caipira?
Está no sangue. Eu estou muito bem aqui. Agora, se me põem numa fazenda com lampião de querosene, gado, cachorro latindo à noite, aí eu morro de alegria. Eu sinto muito, principalmente, cheiros, cheiros de plantas, nossa, dá uma saudade louca. É diferente, é tudo diferente. No meu apartamento aqui (São Paulo) tenho 22 passarinhos e cachorro, e trato todo dia, morro de alegria. Tenho um monte de plantas também, e com tudo que eu faço ainda acho tempo.
O que é vida simples para você?
É a vida normal. Tudo que não é simples é anormal para mim. Você complicar uma coisa que você pode fazer tão bem, tão calmamente, dentro das suas regras, do seu jeito de viver. Complicar é sair da gente. Eu não saio, não.
OBS:. Longe de querer desqualificar a entrevista e o trabalho da Priscila Santos, da Editora Abril - do contrário não teria postado aqui - mas a Inezita não apresenta o Viola, Minha Viola desde o primeiro programa. No início, o programa era apresentado pelos grandes e saudosos Moraes Sarmento e Nonô Basílio. Temos aqui em nosso blog um video da Dupla Tonico e Tinoco se apresentando no Primeiro Viola, Minha Viola; é só conferir.

Um comentário:

  1. Na Língua Guarani o termo Caipira é dito Caá Pirá e foi abrasileirado com o tempo para Caá i Pirá e finalmente Caipira. Caá Pirá em Guarani quer dizer Mato e Peixe ou seja Caipira é aquele que vive no Mato. Aquele que vive plantando sua roça para a sua subsistência, caçando e pescando. Aquele que vive no sertão, longe da cidade e que tira seu sustendo da terra da mata e dos rios.

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