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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Coisas de Museu – Lázaro Carneiro

É comum os sociólogos e outros estudiosos do comportamento humano questionarem a razão de tanto saudosismo nas musicas caipiras e, por vezes, fazerem chacotas sobre esse tema recorrente nas poesias cantadas por nossas duplas.

Por se tratar de sentimento humano é, portanto, uma coisa muito íntima que varia de pessoa para pessoa e não cabe a mim discorrer sobre o assunto; até porque não tenho  formação acadêmica na área para analisar tal fenômeno, mas escrevo, a seguir, uma justificativa para esse comportamento dos autênticos caipiras.

Quero, nesse artigo, falar de mim em um misto de depoimento e desabafo e, como bom caipira, falarei de saudades. Não abordarei aqui questões políticas, como o êxodo rural, a não reforma agrária ou qualquer outro tema mais complexo. É impossível uma pessoa como eu que gosta de lançar um olhar diferenciado sobre a sociedade em que está inserido e, a partir desse olhar critico, não  escrever com sentimento as coisas nela percebidas.

Recentemente estive em Lençóis Paulista em visita ao museu daquela cidade, pois fui avisado por um sobrinho que o velho carro de boi dos meus tempos de moço havia sido doado ao museu e estava integrado ao seu acervo.

Então pergunto ao leitor, como não falar de saudade diante disso? Ao longo de minha vida experimentei alguns progressos que me possibilitam hoje manipular um computador com a mesma tranqüilidade que comandava uma junta de bois que tracionava campo afora aquele carro lotado de cascas de barba timão que era levado por caminhões até os curtumes de couro, numa época em que a química industrial ainda não era largamente utilizada em nosso pais. Aqui me falta espaço para descrever a emoção que senti diante do inusitado, já se passaram quase meio século e lá estava eu e o carro frente a frente.

Com a imprecisão do meu olhar já cansado, auxiliado pelo tato de minhas mãos trêmulas pela emoção, fui tateando cada peça que o compunha, desde a chaveta  que o prendia à canga, toda a extensão  do cabeçalho, a cheda, os rodeiros ferrados intactos, os dois fueiros que ainda restam, que apesar da fragilidade permaneceram solidários ao conjunto, segurei firme em uma de suas rodas e agachei-me lentamente para observar seu eixo de cabriúva sextavado que parecia envernizado, preso aos enigmáticos cocões e chumaços que ainda pareciam zunir em meus ouvidos. Para me livrar dessa carga emocional fiz uma poesia e, lógico, o tema é saudades.

Olá velho carro de boi
Por onde tinhas andado
Seria ai pelo cerrado
Pois nunca mais eu te vi
Desde que nos apartamos
Isso já faz muitos anos
E eu ainda não te esqueci
Lá nos campos da coruja
já dobrando p’ro rio claro
Era aventura e trabalho
Naquelas terras sem fim
Ainda te vejo carregado
E os dois boizão ajoujado
O alembrado e o alecrim
Desde uma arvore encopada
Até um fiozinho de capim
Olhando em volta de mim
Só beleza se enxergava,
O silencio era tão bonito
Às vezes eu dava um grito
Minha voz ia e voltava.
Quando me falaram
Que aqui neste museu
Tnha um carro de boi guardado
Fiquei logo apavorado
Prá ver essa peça distinta
E vejo que é o mesmo carro
Com o qual eu amassava barro
Nos campos da vargem limpa
Se lembra meu velho carro
Como os bois me obedeciam,
E seus cocões quando rangiam
Com meus gritos duetavam
Nós dois dobrava o espigão
Prá buscar barba timão
E sobre a carga eu sentava
Naqueles tempos de menino
Eu ainda era risonho,
Cabeça cheia de sonhos
Ansioso por meu destino
Um dia sem ser preciso
Te abandonei sem motivo
Prá tentar ser um granfino.
Claro que você se lembra
Você ta forte e bem guardado
Aqui no museu preservado
Testemunha dessa historia
Eu estou aposentado
Escrevo sobre o passado
Ainda vivo na memória

Lazaro Crneiro

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